Marketing como Gestão

Marketing como Gestão

Marketing como Gestão
Sobre o autor: Mestrado em Gestão e Planejamento | Especialização em Comunicação Empresarial e Marketing. Atuações e consultorias em Gestão e Marketing no Brasil e América Latina.

Volume 22 Nº 1 (2022) REGEM fev 2022 

ISSN 2763-8022 (International Standard Serial Number)

por Prof. Saulo Carvalho
*direitos reservados ©. Texto com liberdade de citação: CARVALHO, Saulo Henrique

 

MARKETING como GESTÃO

Uma disrupção na administração de empresas

a gênese de uma mudança disruptiva

A administração clássica sofreu nos últimos 30 anos uma verdadeira revolução.

Alicerces fundamentais da administração de empresas continuam lá, no entanto, todo o restante da construção foi adaptado, reinventado e melhorado.

E toda essa revolução possui um agente de disrupção: o Marketing.

Obviamente é difícil atribuir protagonismos durante essa evolução pois foram muitos os que contribuíram com pesquisa e prática administrativa para administração científica. Saliento que os pesquisadores aqui descritos são considerados por mim importantes precursores em meio a muitos outros.

Os alicerces do taylorismo continuam firmes. Conceitos de medições, parâmetros de qualidade, busca por eficiência e eficácia são como nunca importantes. Frederick Taylor (1856 – 1915) contribuiu como poucos para a construção do pensamento da administração científica.

Cabe pensar a administração de empresas clássica como um monólito. Toda pedra bruta precisa de lapidação e melhorias constantes.

 Esse monólito foi impactado (lapidado) severamente ao longo das últimas décadas – sobretudo as duas últimas – e os fragmentos, resultantes desses impactos, cristalizaram-se como importantes ferramentas e ciências de gestão.

Grosso modo, podemos alinhar tais fragmentos às teorias preconizadas por Jules Henry Fayol (1841 – 1925) que, dentre outras contribuições, já sugeria a organização da administração científica em células interdependentes.

Nesse momento da leitura é importante você entender o Marketing como ciência de análise de mercado e não somente caracterizá-lo por seu fim óbvio: entregar produtos e serviços no momento certo, com a qualidade almejada, para o público certo e com a precificação correta.

Dito isso, outra personagem fundamental surge aqui: Peter Drucker (1909 – 1995). Drucker foi um dos primeiros pesquisadores a iniciar os entendimentos do Marketing dentro da prática diária de administração empresas durante a década de 1950.

Até aqui, o Marketing surge como mais uma ferramenta da administração científica.

Esses entendimentos iniciados por Drucker foram imediatamente assimilados e expandidos por Jerome McCarthy (1928 – 2015) que propôs evidenciar essa “nova ferramenta” da Administração de Empresas como composto mercadológico.

A partir de McCarthy houve uma verdadeira explosão de esforços para entender melhor os mercados e vender mais produtos e serviços.

O Marketing nas décadas seguintes passa ser importante ciência dentro da gestão de qualquer organização que buscasse crescimento de vendas.

Marketing 1.0

Em 1960 o economista Theodore Levitt (1925 – 2006), professor de Harvard, publica artigo intitulado Miopia em Marketing com importante alerta sobre o Marketing: a ciência de entendimento mercadológico estava sendo tratada sem o devido foco no maior protagonista do capitalismo de consumo: o cliente. Levitt estava certo!

Os esforços eram para o produto e o mercado concorrencial em si. Os clientes eram considerados o objetivo final e não o cerne do processo construtivo das estratégias. Hoje compreendemos isso como Marketing 1.0. 

Marketing 2.0

Esse gatilho de Levitt, ainda na década de 1960, trouxe outro economista, Philip Kotler (1931), e seu livro Administração de Marketing para o jogo principal.

Kotler passa a pragmatizar as eras de evolução do Marketing e possibilitar a construção de maior entendimento sobre as etapas da evolução dessa ciência, que virá surgir 5 décadas mais tarde.

 Kotler começa a valorizar o Marketing não somente como uma ferramenta da administração científica, mas sim como ciência específica e que, portanto, deverá ser objeto de análise aprofundada. Objeto de pesquisas e métricas pautadas na prática científica.

Surge aqui o Marketing 2.0 ainda como uma ferramenta da administração, mas, sendo preparado a maior protagonismo.

Como o cliente passa a ser, mesmo que ainda de forma inicial, parte dos objetivos primários das empresas, era necessário lançar o Marketing para outro patamar com estudos de filosofia e comportamento humano.

O método de observação, elaboração do problema, levantamento de hipóteses, experimentação, análise dos resultados e conclusão passa a ser de fato utilizado nos estudos e aprimoramento do Marketing.

Para as estratégias e entendimentos de mercado concorrencial, importantes contribuições também passam pelo trabalho de Michael Eugene Porter (1947) entre outros.

Já para as estratégias de gestão e desenvolvimento de pessoas destaca-se a obra de Henry Mintzberg (1939).

O Marketing 2.0, ou seja, o Marketing que possui o cliente como primazia estratégica se fortalece nas décadas de 1970, 1980 e 1990.

Marketing 3.0

Estamos na década de 2000. O Marketing 2.0 consolida-se e o foco é total no cliente. Ele mesmo, o cliente, passa a ter maior controle sobre suas decisões e conhecimento de direitos, tornando-se assim cada vez mais exigente.

LEIA TAMBÉM: COMPORTAMENTO do CONSUMIDOR no BRASIL

Segundo Kotler 2010 o Marketing passa a ser centrado no espírito humano. As empresas, suas marcas e produtos precisam agora atender além dos critérios racionais, às demandas emocionais e qualidade de vida seus públicos consumidores.

Marketing 4.0

Um importante apêndice surge dentro do Marketing 3.0. Tão importante que devemos classifica-lo em paralelo. O Marketing 4.0 vem atender sob as TICs (tecnologias informacionais e comunicacionais) toda a necessidade de análise de dados para mergulhar no entendimento dos consumidores.

Internet torna-se parte fundamental do consumo, lazer e trabalho mundiais e, o comportamento do consumidor na web, entrega miríade de informações sobre personalidades, hábitos e costumes.

A inteligência artificial que por muito tempo será palco de debates sobre ética e direitos à privacidade e, todas as ferramentas computacionais e tecnológicas (hardwares e softwares), são o princípio de algo ainda nebuloso, mas inevitável: o metaverso.

 LEIA TAMBÉM: MARKETING 3.0 E 4.0 NUNCA FORAM TÃO IMPORTANTES

Marketing 5.0

e o mercado líquido

A profusão tecnológica indubitavelmente modificou e acelerou comportamentos humanos e consequentemente de consumo. Muitos inclusive começam a se incomodar com tanto poder que as tecnologias, e nós próprios, concedemos às big techs e suas plataformas de captação de personalidades, desejos e comportamentos de consumo.

Para Kotler (2021) a tecnologia precisa ser assumida para o bem da humanidade. O debate, portanto, é entendermos como empresas podem agir tecnologicamente maximizando lucros e colaborando para uma sociedade mais igualitária que, por sua vez, deverá garantir a essas organizações, posição sustentabilidade e crescimento financeiro.

Zygmund Bauman (2001) inaugurou o conceito de modernidade líquida. Segundo Bauman, no mercado atual, a fluidez e o dinamismo do comportamento e do consumo fustigam cada vez mais a moral e o sentimento de ser.

Os consumidores se perguntam se querem de fato que o Facebook, WhatsApp, Instagram, Tik-tok, Google, etc. os conheçam melhor que suas próprias esposas, maridos, pais e filhos.

Organizações empresariais e governos precisam urgentemente atentar-se a esse sentimento de desconforto dos consumidores no atual mercado líquido. Desconforto que certamente irá crescer. Os governos devem debater com a sociedade e agirem de forma regulatória.

Já as empresas precisam utilizar as ferramentas atuais de alavancagem de vendas e negócios e, ao mesmo tempo, contar com profissionais éticos e generalistas que entendam profundamente de Administração de Marketing, filosofia, psicologia, o comportamento do consumidor e da sociedade como um todo.

Organizações que buscarem esses profissionais estarão garantidas nas mentes e corações de seus respectivos clientes e consumidores.

A tecnologia não pode voltar-se aos criadores e sim servir a propósitos éticos e melhoria contínua das pessoas. A combinação dos fatores humano e tecnológico possui desdobramentos para a administração de empresas e negócios que ainda desconhecemos.

MARKETING como GESTÃO

Uma disrupção na administração de empresas

Marketing como Gestão

A Administração de Marketing deve ser agente impulsionador da fundamental importância do cliente para todos os departamentos corporativos. 

O trabalho do Marketing é ancorar suas análises, estratégias
e ações em pessoas, processos, indicadores, produtos, preços, publicidade e disponibilização 
dos produtos e serviços ao mercado. Todas as pessoas de uma organização devem entender claramente esse papel e também serem incentivadas a colaborar com este desenvolvimento funcional do Marketing.

A cultura organizacional vertical clássica da administração de empresas precisa ser substituída, pois o Cliente há muito deve ser o centro das estratégias de qualquer organização. Entenda que tal protagonismo deve ser compartilhado com todos os departamentos estruturais das empresas.

Muitas delas já possuem em sua estrutura organizacional o CMO como executivo principal ou copartícipe das decisões estratégicas fundamentais.

O departamento de Marketing não deve ser comunicado das decisões estratégicas e sim participar diretamente da construção das mesmas. O Marketing deve ser definitivamente o elo forte entre todas células da gestão corporativa.

O CMO e seu time deverão analisar juntamente com todos os departamentos, o quanto e como as operações diárias executadas em cada um deles, impactam no relacionamento e qualidade de entrega aos clientes.

Predictive Data Analysis - Saulo Carvalho, MSc.

Gestão de Pessoas: o Endomarketing e desenvolvimento devem ser a principal preocupação do departamento de Pessoas em associação ao departamento de Marketing. Aqui as ações deverão facilitar o engajamento dos times para com a missão, visão e valores da empresa.

Gestão de Produtos e Engenharias: o desenvolvimento de produtos não pode caminhar sem profunda participação do departamento de Marketing e após exaustivas pesquisas mercadológicas, sob pena de grandes prejuízos operacionais. Aqui o propósito é garantir que produtos, serviços e sobretudo o pós-vendas estejam de acordo com as dores do cliente.

Financeiro: o desenvolvimento e execução orçamentária deve ter o Marketing como principal parceiro, pois, a definição de investimento deve ter o cliente como objetivo final. Aqui é importante garantir que a lucratividade e gestão dos custos mantenham a qualidade esperada pelo cliente e alimentem constante inovação.

TI: toda a estrutura de tecnologia e informação da empresa deve atender diretamente aos colaboradores internos e escalar o aumento da satisfação dos clientes e retorno de vendas. É exatamente o departamento de Marketing que deverá fazer uso e desenhar tais estratégias.

Comercial: o time de Marketing deverá apurar dados, gerar inteligência mercadológica, criar narrativas e avaliar como o time comercial as utiliza junto aos potenciais e atuais clientes. A partir desta avaliação sistêmica o departamento de Marketing será o responsável por propor, desenvolver e aplicar melhorias, treinamento e desenvolvimento ao time comercial.

O desenvolvimento adequado do Marketing como Gestão exige forte diligência e compreensão da alta gestão, para que melhores práticas não se percam no caminho entre os discursos e as ações, sob pena de danos tóxicos aos melhores processos almejados e, em termo, danos à lucratividade e imagem da organização.

Daqui em diante Marketing não será mais uma importante ferramenta de gestão administrativa. Será a própria administração em si.

Sua empresa deve começar já essa revolução!

Citação a CARVALHO, Saulo Henrique.

Professor Mestre Saulo Carvalho é Mestre em Gestão e Planejamento (UNITAU) stricto-sensu. Pós-Graduado em Comunicação e Marketing Empresarial (UMESP) lato-sensu, Graduado em Administração de Marketing (UMESP). Admitido em regime especial ao Doutorado sobre Pesquisa Operacional (ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica e Universidade Federal de São Paulo).

Consultor empresarial com atuações no Brasil e América Latina. Ministra disciplinas de Administração, Marketing, Pesquisa e Planejamento Estratégico aos cursos superiores de Administração, Marketing e Engenharia. É pesquisador sobre Gestão, Marketing e Ambiente Econômico. Desenvolve e aplica pesquisas científicas sobre Gestão e Marketing.

Lattes CNPq: http://lattes.cnpq.br/4888421957045803

LEIA OS TERMOS DE USO ©

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar,

2001.

KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 5.0. Tecnologia para a humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.

KOTLER, Philip. KARTAJAYA, Hermawan. SETIAWAN, Iwan. Moving from Traditional to Digital. Marketing 4.0, amudança do tradicional para o digital.1° ed. Lisboa: Actual, 2017.

KOTLER, Philip. KARTAJAYA, Hermawan. SETIAWAN, Iwan. Marketing 3.0, as forças que estão definindo o novo marketing centrado no ser humano.1° ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

LEVITT, T. Marketing myopia. Harvard Business Review. v. 38, p. 45-56, jul/ago, 1960.

MINTZBERG, H. Power in and around organizations. Englewood Cliffs, N.J, Prentice Hall, 1983.

PORTER, Michael E., 2004. Estratégia competitiva : técnicas para análise de indústrias e da concorrência. Rio de Janeiro : Elsevier, 2004

 

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